Alice in Chains mostra seu peso em São Paulo

 

Foi pesado! E quando digo “pesado”, não estou falando do peso da guitarra, das distorções, da coisa rasgada e suja. Não. Eu estou falando da massa de som que saiu das caixas do Espaço das Américas, ontem à noite. Ouvia-se tudo como se fosse uma coisa só. Uma matéria uníssona de um som potente, bruto e poderoso! Não havia elemento sobrando ou faltando; estava tudo redondo. É aquele tipo de som que você quer para todos os shows da vida.

 

Tudo ornava, e ficou ainda melhor com o coro do público, que não lotou a casa, mas também não fez feio. Ele foi grande companheiro da banda, na noite passada, e foi dessa maneira que o Alice in Chains respondeu para quem estava na platéia, com companheirismo.

 

Repetindo a dose do SWU de 2011, abriram com as já esperadas “Them Bones” e “Dam That River”, que foi para deixar a galera toda pilhada desde o começo. Na sequência, “Hollow”, carro-chefe do último álbum da banda, e “Check My Brain”, do álbum Black Gives Away To Blue, de 2009. Músicas novas, sim, de uma fase diferente, sem Layne Staley. Mas ninguém ficou parado, não. Todo mundo cantou juntinho, de braços erguidos, sem deixar passar uma estrofe em branco. Ou seja, o Alice in Chains conquistou de vez o público que antes só queria saber dos hits clássicos. Mostrou que essa nova fase veio para ficar, e que eles estão muito bem resolvidos desse jeito. E de fato, estão. O som da banda em cima do palco define tudo. E William DuVall não é o frontman que todos esperam, fato. Mas, o que não falta para ele é carisma. Enquanto Cantrell sofre para falar um “obrigado, São Paulo”, DuVall já está dialogando com o público, como se fosse o Prof. Pasquale da banda. O cara fala português tão bem que nem parece gringo.

 

Sean Kinney tocou o tempo todo com a camiseta da seleção brasileira, e Mike Inez tocou o f@%#-se para a lei que proíbe cigarro em ambientes fechados, praticamente o show inteiro. E foi nessa vibe, como se eles estivessem tocando no quintal de casa, com os amigos assistindo, que o show seguiu.

 

A sequência dos fatos: “Again”, “Man in The Box”, “Your Decision”, “Last of My Kind”, “Stone” e “No Excuses”. Dá para imaginar a energia do público, principalmente nos hits mais clássicos. Mas agora, meu amigo, pára, que eu quero fazer uma pausa dramática.

 

Um show, é considerado realmente bom quando você assiste aquilo que esperava. Uma performance impecável da banda, e um setlist que faz todo mundo pular até o teto. E na era digital, não é difícil descobrir o que a banda anda tocando por aí, em suas turnês. Há quem nem se preocupe em mudar uma ou duas músicas, no mínimo, no setlist. Mas ainda existe, no meio artístico, quem seja o revés dos padrões de espetáculo; aqueles que não querem seguir o bê-a-bá da sequência exata das músicas. Há quem brinque com isso, como se estivesse com um boneco em suas mãos. E é aí, que somos surpreendidos. E foi isso o que aconteceu, ontem.

 

 

Jerry Cantrell pega uma cerveja, brinda com a galera, empunha a guitarra, deixa a distorção soar de leve, puxa de baixo para cima suas cordas, e entorta suavemente uma das notas. Começa “It Ain’t Like That”, na minha opinião, um dos sons mais marcantes do começo da carreira da banda. Todo mundo vai ao delírio, não poderia ser diferente. Mas esse, ainda não é o momento da grande surpresa; ela precisa ganhar corpo, para ficar maior e mais contagiante. Para isso, a banda manda um “We Die Young”, e você pensa “Uau, duas músicas espetaculares, uma na sequência da outra. Cara, isso foi demais!”. E é aí, amigo, que você se engana. É aí que mora o ponto onde você acha que nada mais de surpreendente pode acontecer. Até que começa “Sludge Factory”, e só de lembrar e escrever esse nome, eu me arrepio. E se você é fã de Alice in Chains, sabe do que estou falando. Uma das músicas mais pesadas do terceiro álbum da banda, com uma levada fenomenal.

 

Estávamos eu, meu irmão, e um amigo, todos ex-companheiros de banda, boquiabertos, um ao lado do outro. Quando a música acabou, nos entreolhamos e falamos, praticamente, todos juntos: “O que foi isso? Olha essa sequência! Os caras capricharam nessa, hein!” Mas não deu nem tempo de raciocinar muito mais ao redor do tema, pois enquanto ainda estávamos alí, naquele misto de euforia e indagação, a banda já começava a tocar “Grind”. E para fechar esse parágrafo, parafrasearei o que meu amigo disse naquele exato momento: “Assim, você mata o pião, meu amigo!”

 

Foi foda! FODA! Desculpem o linguajar, mas há coisas na vida que não podemos definir de outra maneira. Elas nem são dignas de outra expressão a não ser essa: “Foda”. Você sabe, não é? Ela define.

 

Ao meu redor, para onde quer que olhasse, era um festival de “Nossa”, “PQP” e “C@%#$*”. Impossível seria, se alguém achasse isso completamente normal.

 

 

Após essa sequência devastadora, a banda trás duas camisetas da seleção brasileira ao palco. Uma, com um número dois, e bem acima dele, o nome “Starr”. Outra, com o número nove. “Staley”. E então, começa “Nutshell”. Uma bela homenagem ao ex “zagueiro”, xerife da pequena área, Mike Starr, e “atacante” matador da banda, Layne Staley. No bumbo de Sean Kinney, podíamos ler as inicias LSMS, durante toda a apresentação. E isso, de fato, deixa claro que a alma de Staley e Starr ainda estão vivas no som da banda.

 

E esse foi o final do tempo regulamentar. Um pequeno intervalo para cerveja, e a banda já está de volta ao palco. Dessa vez, todos, menos Mike Inez, usam o uniforme da seleção brasileira. “WTF, dude?” pergunta Cantrell à Inez, como quem diz “Era parte do trato, todo mundo de amarelinhas!”. Mas o baixista não deu muita bola, preferiu continuar de preto, mesmo.

 

E o bis foi curto. Poderia ter sido maior, com certeza. Gostaria de, pelo menos, mais três músicas. Mas entendo, nenhum deles é mais um garoto de 20 e poucos anos. Aí entra todo aquele papo de família, mulher, filhos, dormir cedo, acordar cedo, enfim. Vamos dar um desconto para os titios. Uma hora e meia de palco é justo. E a apresentação foi impecável.

 

Fecharam com “Would?” (claro!), ápice do coro na platéia, e “Rooster”. Saíram do palco alguns minutos depois e deixaram aquele gostinho de “quero mais” na boca de todo mundo. Nos resta esperar que voltem o mais rápido possível.

 

Amigos, que apresentação! Foi pesado! Foi intenso! Foi foda!

 

Gostaria de ressaltar, também, que a infraestrutura do Espaço das Américas ajuda muito. Já é a terceira apresentação que assisto no local, e todas tinham uma qualidade sonora muito boa. Para mim, todos os shows de rock deveriam ser lá, daqui para frente. O lugar segura o tranco. Sem a qualidade sonora do local, o show de ontem não teria sido o mesmo, definitivamente. E tudo o que os fãs de rock merecem, é um sistema de som decente, para escutar o artista do modo como foi feito para ser escutado, coisa que, infelizmente, nem sempre acontece por aqui.

 

 

Set list

 

1. Them Bones
2. Dam That River
3. Hollow
4. Check My Brain
5. Again
6. Man in the Box
7. Your Decision
8. Last of My Kind
9. Stone
10. No Excuses
11. It Ain’t Like That
12. We Die Young
13. Sludge Factory
14. Grind
15. Nutshell

 

Encore:

 
16. Would?
17. Rooster

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