Opinião 

É preciso da morte para ser compreendido?

 

Quantos artistas estão no mítico “Clube dos 27”? Dez? Entre eles estão: Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain, Amy Winehouse… Mas não se consagraram por terem falecido aos 27 anos, se consagraram por que foi preciso morrer para fazerem três vezes mais sucesso do que enquanto estavam vivos. Isso não é de hoje. Pintores, por exemplo, só têm suas obras em exposição e o seu devido reconhecimento, pós morte; claro que existem algumas exceções. O mundo é injusto com a arte, nesse sentido. Talvez no Brasil, essa cultura de idolatrar o artista pós-morte, seja pior do que em outros países.

 

Renato Russo, Cazuza e Raul Seixas vêm sendo homenageados e ainda tem muita coisa no baú desses artistas. Em 2009 a música Gospel e Check Up, censuradas durante a ditadura militar, foram lançadas junto de uma coletânea intitulada, “20 anos sem Raul Seixas”; foram precisos 20 anos para lançar essas versões? A música Gospel teve a letra alterada e intitulada Porque no disco O Rebu que Raul produziu para uma novela global em 1974; a canção foi interpretada pela Sonia Santos. Já a música Check Up, Paulo e Raul escreveram para a Rita Lee, quando ela fazia parte da banda Tutti Frutti, no disco Entradas e Bandeiras de 1976; a canção chama-se Bruxa Amarela; Raul ainda gravou uma versão de Check Up no disco A pedra de Gênesis de 1988.

 

Falando em Rita Lee e voltando ao foco, acho lamentável que uma das maiores bandas de rock de todos os tempos não seja idolatrada o tanto quanto merece. Foram cinco discos de intensa criatividade entre Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee. Participaram do movimento tropicalista, misturaram cultura erudita e popular nas canções, beberam dos Beatles e misturam ritmos como o caipira com o rock and roll.

 

Caetano e Gil criaram a Tropicália, mas Os Mutantes foram fundamentais. Minha amiga leu a biografia da banda e assistimos o documentário sobre a Tropicália. Ela ficou incomodada com uma coisa que o crítico musical, Carlos Calado, autor do livro A Divina Comédia dos Mutantes, disse sobre o Arnaldo Baptista: Se Arnaldo tivesse morrido naquele acidente, ele faria tanto sucesso quanto Raul Seixas fez pós-morte (não foram exatamente essas palavras). Fato! E, além disso, ouso dizer que Os Mutantes seriam mais conhecidos que Jesus Cristo, como diria John Lennon.

 
É como se fosse preciso morrer para que a mídia e as pessoas prestassem atenção nas suas idéias. Arnaldo segue carreira solo até hoje e ele deve ser colocado como um dos Pais do rock nacional, assim como a jovem guarda, Rita Lee, Celly Campello e Raul Seixas.

 

“Oh morte, tu que és tão forte, que matas o gato, o rato e o homem. Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar. Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva. E que a erva alimente outro homem como eu porque eu continuarei neste homem, nos meus filhos, na palavra rude que eu disse para alguém que não gostava e até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite…”
(Canto para minha morte, Raul Seixas)

 

Que nos alimentemos da música e que não percamos a oportunidade de ver e homenagear o artista vivo; afinal, não vejo graça em hologramas. Prefiro ouvir o disco em casa.

 

 

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