Bandas Entrevistas 

Banda Huey em entrevista exclusiva

Nesse último domingo (28/04) rolou mais um DIY (Do it Yourself) or Die no FFFront na capital paulista. Um encontro entre quem produz e quem se interessa por cultura, arte e estilo de vida do “faça você mesmo”, como diz a página do próprio evento. A entrada foi gratuita e entre as diversas atrações, tivemos duas bandas do cenário paulista: Combover e Huey. A Rock de Verdade estava lá e trocou uma ideia com as bandas e você pode conferir abaixo a entrevista completa com a banda Huey:

Rock de Verdade: Me contem um pouco sobre a banda, como ela começou, qual foi a ideia de começar a banda?

Vina: Começa em março de 2010 com essa formação fechada. A ideia de montar o Huey vem de uma vontade de tocar com amigos, acho que todo mundo tinha outras bandas, o Vellozo tocava com o Dane no 2DF, o Minoru tocava com o Rato no Page Down, e eu tocava numa banda chamada Groundfloor. A gente vivia se esbarrando, vira e mexe a gente tocava em show junto, acho que o 2DF tinha uma carreira até mais consolidada, o Page Down  e o Groundfloor era mais underground, mas a gente se cruzava. Nós já éramos amigos e eu estava querendo fazer algo diferente, fazer um som diferente do que eu estava fazendo com as outras bandas, então tive a ideia de fazer um projeto, desse projeto acabou surgindo a Huey. Quando nos juntamos, não sei se por todos já serem amigos, já tocarem faz um tempo, alinhou um tipo de frequência de energia que eu  arrisco a dizer que nunca tivemos nas outras bandas.

Vellozo: O Huey nasceu adulto já, é a sensação que eu tenho. Pegamos todo esse passado com outras bandas, nós sabíamos exatamente o que não queríamos passar de novo, sabíamos exatamente o que não funcionava para a gente naquele momento. Então sabíamos ouvir e falar nos momentos certos, nós fomos crescendo juntos. Foi o que o Vina falou agora, nós encontramos um ponto de intersecção entre nós.

Vina: Nós tivemos as bandas de adolescência quando a gente estava querendo buscar algum resultado com alguma coisa, é muito louco isso, mas a sensação é que com o Huey eu sei exatamente o que é o sucesso pra mim hoje, porque sucesso é estar tocando com os meus amigos.

Vellozo: É, sucesso é estar feliz!

Vina: Antes do Huey, nós tínhamos um pouco esse lance de querer tocar na TV, ter um clipe legal, tinha outra visão de sucesso sabe? Acredito que quando nos encontramos estávamos bem maduros, a visão já era outra.

Vellozo: Nós já éramos adultos!

Rock de Verdade: Isso é bem perceptível no show de vocês, vocês são muito entrosados. No fim do show fica bem nítido que vocês são muito amigos e, às vezes, a gente não vê isso em todas as bandas, as pessoas até querem que isso aconteça mas nem sempre acontece e isso frustra alguns músicos, porque parece que dificulta um pouco o andamento da banda.

Vina: É, não tem como forçar.

Vellozo: É engraçado, você acabou de falar assim, a gente tenta explicar e não consegue explicar, porque não tem explicação, amizade não tem explicação, é um sentimento muito único e é exatamente isso, nós somos amigos e ponto final. A gente não tem  que achar uma explicação pra isso. E foda-se como isso aconteceu, aconteceu.

Vina: Eu acho que é uma amizade bem completa, tem um exemplo bem legal, antes de gravar o disco nós vínhamos ensaiando muito consecutivamente, nós gravamos ao vivo, então precisava estar bem redondo. Acho que tem banda que depois disso não aguenta nem olhar mais um na cara do outro de tão junto que fica. Nós, um dia antes de gravar, fomos pra minha casa pra ficarmos juntos rs. Então ficamos em casa tomando uma cerveja e conversando, acho isso um bom retrato do que nós somos.

Rock de Verdade: De onde surgiu a ideia de ser uma banda instrumental?

Vina: Boa pergunta!

Vellozo: Isso foi uma coisa que aconteceu.

Vina: É aconteceu, foi um encontro do momento mesmo. Nós tínhamos outro nome antes e tínhamos uma ideia de fazer umas paradas mais stoner, mais rock ‘n roll com pegada stoner, e tinha vocal, mas não funcionou, foi por pouco tempo.

Rock de Verdade: Quanto tinha vocalista, era alguém da banda ou era outro músico?

Vina: Não, era outro músico.

Vellozo: Tanto que eu nem conheci. Isso é uma coisa que eu amo falar, desde o momento que eu entrei na banda nunca existiu um questionamento de “será que temos que ser instrumental?” Não, não existe isso, é instrumental e ponto final. Não teve uma conversa, um café, não tem, é isso e acabou.

Vina: Foi natural.

Vellozo: Nós somos assim, isso foi uma coisa que me encantou quando eu entrei.

Vina: Nós vimos que de alguma forma tínhamos muito pra dizer mas por outras vias.

Vellozo: Nós temos muito pra dizer sem falar nada.

Rock de Verdade: Eu gosto muito disso particularmente. Hoje quando comentei com o fotógrafo que vocês eram instrumentais, ele ficou um pouco desanimado, mas eu disse “Eu também não costumo gostar, mas pára para ouvir que essa banda é foda. Depois de umas músicas ele disse “A banda é foda mesmo!” rs.

Vellozo: Uma coisa que nós falamos há muito tempo e faz muito sentido, parece que a banda instrumental é um livro e não um filme, ela simplesmente dá um sentimento, te dá toda a textura do que você tem que pensar, mas não é tão literal, você vai pra onde você quiser.

Vina: Brinca com a sua imaginação de alguma forma.

Vellozo: Isso é uma liberdade muito gostosa, porque você pega um sentimento e direciona para algo que aconteceu com você hoje, essa liberdade é muito legal, é diferente.

Vina: Nós passamos um pouco disso, nós somos uma banda inclusiva, nós incluímos o público, nós nos incluímos enquanto amigos, nós tocamos e temos essa troca. No instrumental não tem um protagonismo, eu estou dividindo coisas com o restante que está tocando, não tem alguém falando por mim, são todos contando uma história sem verbalizar nada e ao mesmo tempo você ao vivo tem uma troca com o público. Como você falou, você sentiu isso, nós te passamos uma mensagem e você compartilhou essa mensagem conosco, você entrou na nossa frequência e nós entramos na sua, entendeu? Porque tem uma troca.

Vellozo: E isso acontece mesmo, mesmo! Não é uma balela, nem fudendo! Nós sentimos exatamente o que está acontecendo na nossa frente na velocidade que tem que acontecer.

Vina: Isso é uma coisa que desde o começo rolou assim, nós fizemos um show uma vez no serralheria e uma amiga nossa de muitos anos comentou que o legal é que a banda inclui o público. A banda começou ali, quando resolvemos não verbalizar nada e contar de outra forma. Porque talvez se tivéssemos vocal, letra, não incluíssemos tanto as pessoas.

Rock de verdade: Vocês acreditam que é mais difícil fazer um som só instrumental? Ou vocês sentem que é a mesma coisa?

Vellozo: Não sei se a palavra difícil é a mais correta, mas sem dúvida alguma, tem um lance de pensar um pouco mais, porque a voz direciona muito, ela cadencia muito, ela é o refrão, ela é o protagonista, a partir do momento que você tira esse protagonismo, você distribui ele para todo o resto. Você dividi, está com todo mundo, está com a bateria, o baixo, a guitarra, está todo mundo ali na mesma, então eu acho que é uma coisa que dá pro instrumental uma importância de complementar o sentimento bem interessante. Mas eu não gosto de colocar em uma coisa competitiva, é uma coisa que não me deixa tranquilo em dizer.

Vina: Tem esse lance do instrumental, por exemplo, chorinho, o jazz onde você intercala protagonismo e aí você tem um tempo ali que está te ditando o que vai acontecer no próximo compasso, mas eu acho que a gente chegou em um lugar onde…

Vellozo: A gente odeia levantar essa bandeira.

Vina: …é, eu não sei nem se somos instrumentais, eu acho que nó somos o Huey, sabe.

Vellozo: Nós somos música. Sempre colocam a gente num patamar: instrumental. O instrumental não é um patamar, é música gente. Se ele é reggae, se ele é chorinho, é música. Isso me incomoda, porque quando você fala que é instrumental parece que você cai em um buraco. Mas não, é só uma música sem a voz e isso realmente é um buraco que a gente tem que transcender.

Rock de Verdade: Hoje foi um evento bem legal, acredito que vocês tenham gostado também. Vocês estão com próximos shows marcados?

Vellozo: Com certeza gostamos. Temos sim, dia 11/05 No Breve na Pompéia com a banda Oceania de Belo Horizonte. Depois vamos pro Sul.

Minoru: 31/05 em Jaraguá do Sul, 1/06 Joinville e 2/06 Curitiba.

Rock de Verdade: Vocês estão rodando o Brasil pelo visto. Vocês são de São Paulo capital mesmo?

Vellozo e Vina: Sim, somos de São Paulo.

Vina: Lançamos o disco, então precisamos divulgar esse disco agora.

Vellozo: E resistir né, precisamos estar presentes.

Vina: Precisamos tocar, precisamos estar ativos. Só se cria o movimento se movimentando.

Rock de Verdade: Vocês acham que está difícil marcar show pra quem é somente autoral?

Vina: Eu não acho sabia, eu acho que em parte por nossa maturidade, aprendemos que se você se mexer a coisa acontece sabe? Se você ficar sentado esperando não vai ter show que vai vir até você e tem muita gente que às vezes fala que não tem lugar pra tocar, não tem banda pra dividir palco, cara, tem! Aqui mesmo no FFFront, tem show de quarta a domingo, quase todo o final de semana. Às vezes, pode ser banda que você não conhece, mas por exemplo na Casa do Mancha tem show de terça a domingo, ou é Carne Doce ou sei lá…

Vellozo: Ou seja, espaço tem.

Vina: Se você se mexer e quiser fazer, as coisas acontecem.

Vellozo: O que não pode é ficar parado.

Vina: Estamos alinhados, eu ia falar isso rs. Porque energia parada, não é nada.

Vellozo: Não que seja fácil fazer as coisas acontecerem, não que seja tranquilo, mas é uma batalha, é uma luta. Você tem que estar o tempo inteiro lutando.

Vina: Mas se você ama aquilo pelo que você está lutando, você nem chama de luta, vira um prazer fazer isso. Nós estamos indo atrás de show porque gostamos de tocar, vai acontecer porque gostamos de tocar.

Rock de Verdade: As bandas costumam reclamar um pouco sobre cachê, sobre o famoso ficar no zero a zero. O que vocês pensam sobre isso?

Vellozo: O zero a zero é meio relativo, porque o que é o zero a zero? Se você não tocou não aconteceu nada, se você tocou aconteceu alguma coisa já. Já mudou, já não é mais zero. Mas eu entendo quando alguém reclama também.

Vina: Depende do foco também, existem diferentes focos.

Vellozo: Se você tem uma banda e fica com essa coisa meio utópica de querer chegar em algum lugar rápido, não é assim que funciona.

Vina: É o que eu falei, nós tínhamos essa utopia, quando nós tínhamos vinte anos. Hoje em dia a gente olha que o sucesso é conseguir shows, é ter essa troca de energia.

Vellozo: É a soma né. Você vende teu merchandising, que é bem feito, aí você pega um pouco do cachê, é uma soma de coisas. “Ah não, vou ganhar três pau pra tocar”, não vai ganhar três pau pra tocar em um bar, não vai cara. Aí você junta dois, três e vai valer a pena. E vai pro próximo e assim vai indo.

Vina: Acho que algumas bandas às vezes ficam vislumbrando um sucesso que é utopia. É foco. Você olha o Supercombo lá na Globo, no programa, e você fica pensando olha os caras na globo, mas é o foco dos caras. Sabe, se eles estão lá, de alguma forma, eles mereceram estar lá. É um esforço.

Vellozo: Algo rolou!

Vina: As pessoas olham o teu sucesso, mas não vêem os capotes que você tomou pra chegar lá. Nós tocamos com o Far From Alaska no Festival do Sol em 2014, eles eram a banda de abertura, ninguém sabia quem eles eram. Dois anos depois eles estavam explodindo no mundo, mas é isso. A galera que vê só o final, eles já tocando no SWU sei lá, acha que é fácil, mas eles já tocaram em vários buracos antes disso.

Vellozo: Eles correram com um monte de coisa, tem um esforço grande aí.

Rock de Verdade:  Tem alguma novidade sobre a banda? Algo que vocês vão lançar em breve?

Vina: Nós ainda estamos trabalhando o MA (álbum de 2018), porque tem umas coisas para acontecer que eu não posso te falar ainda rs.

Vellozo: Nós estamos sempre criando, mas agora estamos curtindo o MA porque é gostoso curtir um pouco o que você fez.

Vina: Nós gostamos disso, tem um processo de maturação do disco, tem um processo de vida do disco. Gravamos ele em 2017, então ainda estamos trabalhando nele. Nós temos essa tranquilidade de deixar o disco viver um pouco, ele precisa respirar por ele mesmo de algum jeito.

Vellozo: O Huey tem uma noção de entender que tudo acontece no tempo que tem que acontecer. Gravamos, agora a gente tem que curtir bastante, sem pressa nenhuma e agora cada um dentro da sua crescente como humano mesmo, entender como compor coisas novas, a gente não tem pressa pra isso.

Vina: Queremos aproveitar nossa cria, ensinar a andar, a falar.

Rock de Verdade: Vocês foram pro último Festival do Sol no final de novembro de 2018, como foi essa experiência de tocar pela segunda vez?

Minoru: O lugar do show foi completamente diferente do lugar que tocamos na primeira vez. Agora eles tem muito mais estrutura, antes eram palcos em lugares menores, agora é um palco enorme na praia, o fundo do palco é o mar, é um absurdo.

Vina: Foi maravilhoso cara.

Minoru: Se pudéssemos, tocaríamos todo o ano.

Vina: Muito bom de tocar, eu acho Natal um dos lugares mais fodas que já tocamos. O Nordeste como um todo, mas Natal tem uma aura especial pra mim de alguma forma. E o Festival do Sol tem uma batalha pra fazer as coisas acontecerem. Esse ano o tratamento foi animal. Teve muita diversidade nesse ano, na questão sonora, foi bem rico.

Vellozo: É muito verdadeiro, um festival feito de uma forma bem sincera, nós tocamos e o show foi fantástico.

Vina: E não só no festival né, acabamos fazendo uma mini turnê ali.

Vellozo: Mas o show do Festival do Sol, o olho da gente brilhava igual de criança pequena, vendo tudo acontecer ali na frente, era muita felicidade.

Rock de Verdade: Vocês usaram muitas imagens dessa viagem pra fazer o clipe certo?

Vellozo: Isso tem a ver com o Estevão.

Vina: O Estevão é um amigo nosso que toca no desalmado, ele é dono do Family Mob Estúdio, onde gravamos o disco, o chamamos pra ir com a gente pra registrar a turnê.

Minoru: Ele já ia estar lá por causa do Sepultura, aí ele foi um pouco antes e ficou um pouco com a gente.

Vellozo: Ele captou uma série de coisas com a gente que foram únicas.

Vina: Ele trabalha com vídeo, tem um canal no youtube, então ia ser legal ele captar parte do nosso rolê no nordeste. Um dia acordamos e ele falou, vamos fazer um clipe nas salinas. Deixamos tudo nas mãos dele (Estevão). Nós estamos rodeados de amigos talentosos, por que não fazer algo tudo junto sempre? Ele é um puta talento, ele começou a filmar. Estávamos conversando sobre umas salinas que o Vicente da banda Heavenless (banda de Mossoró) conhecia o dono. Ali pensamos na música “Fogo Nosso”, porque tem o lance do fogo do calor do nordeste, o lance de ser nosso, só que salinas, quando você entra parece neve, então tinha o contraste que achamos legal de brincar com isso. Então ele editou, filmou, captou as imagens, usou algumas imagens do festival do sol e deixamos tudo na mão dele. ficamos muito felizes com o resultado, tem tudo a ver o conceito, com o que queríamos passar de imagem, o que é a música, tudo.

Vellozo: Por que não ser fã dos amigos?

Vina: O FFFront é do Dane, a Fuego que era a produtora que o Vellozo trabalhava é do Dane e do Michel que é outro amigo nosso.

Vellozo: Está tudo muito conectado.

Rock de Verdade: O clipe realmente ficou bem único, casa demais com as músicas de vocês e o mais legal é que mostra que a banda é brasileira. Diferente de algumas bandas que tentam imitar coisas de bandas estrangeiras, vocês mostraram o que é daqui.

Vina: A gente prima por essa honestidade, essa troca com o público, nós já passamos por outra bandas, não precisamos simular coisa que não somos, nem faz sentido, nem passa pela cabeça. Porque vamos fazer isso? Se podemos ser nós mesmos. Nós somos o que somos e pronto.

Rock de Verdade: Onde a galera pode encontrar o som de vocês?

Vina: Todas as plataformas tem. Spotify, Deezer, Facebook, Youtube. Todas estão como Huey Band, porque tem um rapper americano chamado Huey que  roubou nosso nome rs.

Vellozo: Ele foi mais rápido que a gente, rs.

Ai está mais uma entrevista pro site Rock de Verdade, fiquei muito feliz por encontrar essa banda super legal.

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