Sobre mercado fonográfico e 1989

Ontem foi Halloween, mas deixei para hoje a realização do (talvez) seu pior pesadelo. O tópico do dia é Taylor Swift e a importância de seu novo álbum, 1989, para o mercado da música.

No momento, você deve estar se perguntando: Por que a Taylor Swift, no meu ponto de vista, se tornou uma pauta relevante para o ROCK DE VERDADE? Espero conseguir responder essa e as outras perguntas que estão perpetuando em minha cabeça no decorrer desse texto.

Estamos vivendo um momento “interessante” na música, amigo leitor. O momento em que o Pop finalmente deixa de ser um estilo musical “feito para as massas, para o rádio” e volta a ser a forma abreviada de “popular”. Olhe ao redor: O que é pop hoje em dia? A música eletrônica-conceitual de Lady Gaga, o Country-Hip Hop-Synthpop de Miley Cyrus (que recebeu mais mérito pela ousadia sem causa que pelo conteúdo em si), o solo psicodélico de Lana Del Rey e Taylor Swift e seu novo álbum, que está prestes a se tornar o único (com exceção da Trilha Sonora de Frozen) a receber certificação de Platina (dada aos álbuns que venderam mais de um milhão de cópias) este ano.

Os chefões por trás das grandes gravadoras culpam a pirataria pela queda de vendas no mercado fonográfico. Já tem mídias, inclusive, decretando o fim da certificação Platina (caso esta não reduza a quantidade de vendagens necessárias para obteção) e o fim do mercado da música (na verdade, esses já existem há muito tempo) com a desculpa de que “hoje em dia, ninguém mais quer comprar música. Com a pirataria, todo mundo pode obtê-las de graça. Nossa salvação está nos sites de Streaming, serviço que vem crescendo nos últimos anos“.

A pirataria existe há mais de trinta anos. Tivemos, primeiro, a opção de copiar um Vinil ou gravação de rádio para uma fita K7, depois veio a cópia do CD para a fita, para o CD, para o MP3. Claro, o MP3 e a Internet tornaram a pirataria muito mais simples e eficiente, mas é importante notar que o mercado fonográfico só entrou mesmo em crise nos últimos 10, 15 anos. Além disso, o serviço de Streaming é também uma vertente deste mercado – ou seja, por mais baixo que o valor investido pelo usuário/ouvinte seja, eles ainda “pagam” para ouvir o que gostam: As pessoas ainda pagam por música.

Esse grupo de pessoas, os cabeças das grandes gravadoras, estão na verdade querendo que nós pensemos que o apocalipse da música está acontecendo por causa da pirataria – quando na verdade, eles estão presos demais no mundinho numérico deles para se perguntarem o motivo dessas mudanças. Para eles, é muito mais cômodo e coerente acreditar que as respostas estão em números e em estatísticas do que lembrar que o consumidor final nesse mercado é formado por seres humanos; Estes, por sua vez, que estão repetindo mais que vinil arranhado o comentário de que “não se faz mais música como antigamente”.

Num artigo publicado há alguns meses no Wall Street Journal, Taylor Swift fala um pouco desse assunto: “As pessoas ainda estão comprando álbuns, mas agora elas só compram alguns deles. Elas compram apenas os que lhes acertam como uma flecha no coração, ou os que fizeram-lhes sentir fortes ou os que lhes fizeram sentir que elas não estão sós quando se sentem sós. Não é tão fácil hoje em dia, como era há 20 anos, ter um álbum multi-platina, e como artistas, esse desafio deveria nos motivar.”

Ela também fala, nesse mesmo artigo, que existem dois tipos de música: As que são só pra se divertir, que um mês depois você nem vai lembrar que a ouviu nas rádios, e as que representam uma fase da nossa vida – tudo isso dentro de uma ótima analogia entre música e relacionamentos. “O valor de um álbum é, e continuará sendo, baseado na quantidade de coração e alma que um artista derrama em seu corpo de trabalho. […] Música é arte, e arte é importante e raro. Coisas importantes e raras são valiosas, e coisas valiosas não são gratuitas”, diz.

Taylor lançou, essa semana, o “1989”. Estima-se que nesta primeira semana, ele tenha vendido 1.2 milhões de cópias. Estranho: Se a pirataria acabou com a indústria, por que Taylor Swift consegue vender mais de um milhão de cópias de seu disco em uma semana? Por que Justin Timberlake conseguiu vender mais de um milhão de cópias do “The 20/20 Experience” no mesmo período de tempo? Por que Adele vendeu mais de 30 milhões de cópias do “21” em três anos?

A queda de qualidade artística nas músicas populares é notável – e é o principal culpado para a queda de vendas e o “final” tão apocalíptico da indústria musical. Claro, o trabalho artístico não é fator único para o sucesso comercial de um álbum, e por isso nós precisamos de divulgação. Ao mesmo tempo que odiamos um CEO por enxergar apenas números e ignorar o lado artístico e a música que gostaríamos de consumir, precisamos de gravadoras engajadas em dar maior liberdade criativa/artística ao artista, que estejam dispostas a ceder o espaço necessário para sua divulgação (o mesmo aqui para grandes mídias).

Taylor Swift e “1989” são a prova de que ainda há, de fato, uma esperança na música. Pode ser que o álbum não seja bem-recebido por você, mas quem sabe o desempenho dele não faça com que um artista que você goste tenha um espaço? O mercado independente está cheio de pérolas que, com o devido polimento e orçamento, dariam ótimos produtos de cultura popular. Enquanto esses artistas não chegam ao topo, o protesto pela qualidade artística na música segue inconsciente, em silêncio. Em forma de números que representam pessoas, mas que ao mesmo tempo não falam por elas.


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